O poder terapêutico e educativo dos contos



Sempre que falamos de contos de fadas, ou contos em geral, pensamos neles

como uma forma de entreter e divertir as crianças. Porém, os contos são mais do

que um instrumento de diversão para crianças, já que ajudam no desenvolvimento

integral, e continuam o seu labor de estímulo durante toda a vida da pessoa, con-

forme veremos a seguir. Também é importante esclarecer que utilizaremos o

termo conto, como forma geral para o gênero narrativo, incluindo nessa segmen-

tação contos de fadas, contos modernos, fábulas, mitos, parábolas, lendas etc.

A pessoa (como leitor ou ouvinte) encontra significados nos contos, pois eles

transmitem importantes mensagens à mente consciente e à inconsciente. Essas

histórias encorajam o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo em que aliviam

pressões conscientes e inconscientes. À medida em que as histórias se desen-

rolam, dão espaço à consciência, mostrando caminhos para satisfazer as neces-

sidades e desejos, de acordo com as exigências do ego e superego. Ocorre uma

transformação interior que acaba transcendendo sobre toda a vida do indivíduo.

A psicanálise foi a primeira disciplina a admitir as complicações decorrentes da

divisão do sujeito: consciente e o inconsciente. Porém, dentro do mundo literário,

sabemos que isso é um fato consumado, já que a literatura cria personagens con-

traditórios, nem sempre com uma síntese.

De acordo com Jung, o inconsciente se expressa, primeiramente, por meio de

símbolos. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo numa dada cir-

cunstância, podendo ser algo familiar da vida cotidiana. Uma palavra ou imagem é

simbólica quando envolve alguma coisa além do seu significado óbvio e imediato.

A linguagem simbólica é um valioso recurso que se esconde por trás da simpli-

cidade das histórias e que é usada para explicar problemas, etapas ou fatos por

meio de símbolos ou imagens direcionadas ao inconsciente humano, sugerindo

possibilidades e alternativas. Graças a essa linguagem específica, as crianças veem

as suas preocupações e desejos expressos. Atualmente, usamos essa linguagem

para representar coisas que não estão ao alcance do entendimento humano, isto é,

coisas que não podemos explicar com fatos.

Usamos termos simbólicos constantemente para representar

conceitos que não podemos definir ou compreender de forma

alguma. Esta é uma das razões pelas quais todas as religiões

usam linguagem ou imagens simbólicas. Mas esse uso

consciente de símbolos é apenas um aspecto de um fato

psicológico de grande importância: o homem também produz

símbolos inconsciente e espontaneamente na forma de sonhos.

(Carl G. Jung, 1995)

A linguagem simbólica nos transporta para o seu interior pela força do seu sen-

tido, do seu apelo emotivo e afetivo, sem nos persuadir ou convencer com argu-

mentos e provas.

Existem centenas de estudos que corroboram a importância dos contos para o

desenvolvimento integral do ser humano. Segundo Wilhelm Grimm:

Os contos de fadas infantis são narrados para que, com sua luz

pura e suave, os primeiros pensamentos e forças do coração

despertem e cresçam. Mas como a qualquer pessoa, sua poesia

simples pode alegrar e sua verdade pode ensinar e, por ser no

aconchego do lar que esses contos continuam sendo narrados e

se transmitem de geração para geração, eles são chamados de

contos de fadas de família. O conto de fadas fica afastado do

mundo, num local cercado, tranquilo, de onde ele não espia para

lado algum. Por isso, desconhece nomes e lugares, nem mesmo

tem uma terra natal definida... é algo que pertence a uma pátria

comum.


Segundo Bruno Bettelheim (2013), o conto de fadas tem um efeito terapêutico,

pois a criança encontra uma solução para as suas incertezas, por meio da contem-

plação do que a história parece implicar acerca dos seus conflitos pessoais nesse

momento da sua vida. O conto de fadas não informa sobre as questões do mundo

exterior, mas sim sobre processos internos que ocorrem no cerne do sentimento e

do pensamento.

O conto de fadas garante à criança que as dificuldades, os perigos e as fatal-

idades possam ser vencidos por todos os que pretendem vencer na vida. E, a cri-

ança, que é desprotegida por natureza, sente que também pode ser capaz de su-

perar os seus medos, angústias e desconhecimentos. Portanto, poderá aceitar com

otimismo as decepções e desilusões que vai encontrando, pois sabe que, tal como

acontece nos contos, os esforços por vencer darão a recompensa desejada.

É exatamente esta a mensagem que os contos de fadas trazem à

criança, por múltiplas formas: que a luta contra graves

dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência

humana – mas que se o homem não se furtar a ela, e com

coragem e determinação enfrentar dificuldades, muitas vezes

inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos

e sair vitorioso. (Bettelheim, 2013, p.16).

Sendo assim, os contos possuem ao menos cinco funções ou utilidades que

influenciam a vida do ser humano:

1. Mágica: estimular a imaginação e a fantasia;

2. Lúdica: entreter e divertir;

3. Ética: transmitir ensinamentos morais e identificar valores;

4. Espiritual: compreensão de verdades metafísicas e filosóficas;

5. Terapêutica: encontrar nos personagens e situações referências para a nossa

vida. Encontrar também orientação para compreender o nosso mundo interior e

nossos conflitos.

Tendo em vista que este livro e as oficinas que constam nele têm um objetivo

psicopedagógico, é importante ressaltar que, ao trabalhar com os contos, o

professor/ educador, psicólogo ou terapeuta deverá apresentá-los, permitindo que

os participantes/ouvintes manifestem as suas opiniões e preferências, sem nunca

julgar ou questionar negativamente. Devendo estar atento à preferência ou rejeição

em relação a determinada história.

É importante não interferir de forma avassaladora nas descobertas e nas ex-

periências dos ouvintes/participantes, impondo atribuições de significados, uma

moral ou um sentido único para a história. Ao impor uma interpretação, obrig-

amos eles a aceitarem uma interpretação tendenciosa, ou seja, que foi construída

por meio da nossa realidade e experiência vital. Porém, cada pessoa é única, e para

que o conto tenha um efeito realmente terapêutico, deve conectar-se de forma livre

com os símbolos internos do ouvinte, e a partir do seu mundo interior, fazer

crescer uma compreensão e conhecimento que poderão gerar uma mudança de

pensamento e, por consequência, uma mudança de conduta.

Trecho do livro: Contos que Curam

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